16/09/2011

Dona Carolina

Aqui em Belo Horizonte, existe um lugar chamado Praça Sete (de Setembro), o marco zero da cidade.
Diariamente, milhares de pessoas passam por lá e os turistas gostam de conhecer o local, que abriga o Pirulito da Praça Sete. É um dos locais mais movimentados da cidade.



A maioria das pessoas que passa por lá, está na correria da rotina e não se atém aos detalhes. Vendedores de ouro, foto na hora, vendedores de bilhetes de loteria, engraxates, mágicos, artistas de rua, pintores, hippies e outras tribos. Dia desses, a gente passou por lá e viu Dona Carolina sentada num canto, perto da Igreja São José.

De todas as pessoas que estavam por ali, pensei que ela seria a única a não querer conversa. É difícil notá-la por ali. Sempre sentada e com voz baixa e confusa, ela vende a sorte nos bilhetes de loteria a RS3,00.

Sinceramente, a aparência cansada e as rugas no rosto fazem com que ela pareça ter mais do que 64 anos. Morena, cabelos grisalhos presos em um coque. Olhar distante e com o pensamento vagando pelas lembranças de uma senhora que saiu de Montes Claros para trabalhar na capital. São 40 anos de trabalho e nenhuma perspectiva de parar e viver da aposentadoria do governo, já que ainda não conseguiu o benefício.

Ela se diz feliz, mas sem esboçar nenhum sorriso. É uma verdadeira contadora de histórias. Teve quatro filhos e um já morreu e outro está doente. Os outros dois são bem sucedidos. Um é fazendeiro "dos grandes" no interior e o outro mora em São Paulo e "já trabalhou vendendo cartões para o Silvio Santos e depois trabalhou com Os Trapalhões".

Dia desses, li que a mentira mais frequente entre os seres humanos é dizer "estou bem". Custo a acreditar na felicidade de Dona Carolina, que há pouco tempo vendeu um bilhete premiado com R$600 mil. Mas quem sou eu para dizer que ela não é feliz só porque não sorri ou porque jamais gostaria de ter a vida que ela tem.

Espero que um dia ela vença o medo de andar de carro e ônibus e volte para a sua cidade natal, onde não tem "essa poluição horrível do centro da cidade". 

*Não se sabe o que é e o que não é verdade na fala de Dona Carolina.

2 comments:

  1. Quando eu crescer quero escrever bem igual você! Parabéns pelo ótimo texto Lari!

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